A LInguagem do Pertencimento

18/08/2026 11:05

A LINGUAGEM DO PERTENCIMENTO

Há alguns dias, vi uma postagem no Instagram que mostrava uma entrevista realizada no Rio de Janeiro, na virada do Ano-Novo de 1976 para 1977. Nela, operários se expressavam de maneira fluida, limpa e natural. O que causou espanto em muita gente nos comentários atuais.

A expectativa — e, infelizmente, muitas vezes a realidade — é a de que operários falem “errado”, tenham um vocabulário pobre, omitam palavras e apresentem dificuldades para se expressar.

Eu já havia percebido essa diferença no linguajar dos trabalhadores brasileiros ao observar a fala de americanos, franceses e espanhóis, por exemplo, em filmes e documentários. Era como se esse jeito de falar, muitas vezes truncado ou considerado “errado”, fizesse parte da identidade de uma determinada classe social.

Também já havia presenciado erros enormes de português ao atender, em psicoterapia, jovens vindos de um projeto social cujo objetivo era auxiliá-los nas escolhas profissionais e no futuro ingresso no mercado de trabalho.

Como psicoterapeuta, obviamente, eu não poderia simplesmente corrigi-los. Mas ficava espantada ao perceber que ninguém que cuidava de seu futuro profissional parecia se ocupar também da forma como eles se comunicavam.

No passado, tive uma excelente funcionária que cometia erros de português bastante graves ao negociar com clientes por telefone. Com o tempo, criei uma maneira não ofensiva de chamar sua atenção quando isso acontecia — e funcionou.

Criamos um código particular. Ninguém na área sabia o que significava. Só nós duas.

Com o tempo, ela foi melhorando. Chegou a pensar em fazer faculdade. Mas sua família começou a rejeitar aquela nova mulher que estava surgindo: alguém que se diferenciava não apenas pela maneira de falar, mas também pela postura.

As experiências que vivi profissionalmente me mostraram algo que considero importante: tanto o grupo familiar quanto o grupo de amigos e conhecidos podem rejeitar uma pessoa quando ela muda drasticamente sua maneira de falar, de se comportar ou de se apresentar no mundo.

A linguagem, mesmo quando considerada “errada”, revela a que grupo uma pessoa pertence.

E mudar essa linguagem pode ter um preço.

Pode significar deixar de ser reconhecido pelos seus.

Pode significar ouvir que está “metido”, “querendo aparecer” ou “se achando”.

Pode significar, inclusive, experimentar uma certa solidão.

Distinguir-se e fazer aquilo que aparentemente é “certo” não é apenas uma questão educacional. É também uma questão psicológica.

É preciso estar preparado para ocupar um novo lugar.

Quando aboli, em determinada empresa, os testes tradicionais de inteligência e comecei a apresentar aos gestores o conceito de Howard Gardner — a Teoria das Inteligências Múltiplas —, posteriormente passei a realizar avaliações baseadas também na Teoria Psicodramática com os funcionários.

Lembro-me da satisfação estampada no rosto de muitos quando descobriram que não eram “burros”.

Gardner já apontava justamente para isso: inteligência não é uma coisa única. Existem diferentes formas de ser inteligente.

A descoberta de outras possibilidades fez com que alguns voltassem para a universidade, procurassem cursos técnicos e repensassem suas relações pessoais — inclusive seus casamentos.

Porque, quando alguém muda de lugar na vida, nem sempre quem está ao seu lado consegue acompanhar essa mudança.

E isso também é pertencimento.

Não é apenas a classe operária que utiliza a linguagem como forma de pertencimento.

Observe, por exemplo, determinados profissionais — especialmente os de marketing — que incorporaram ao cotidiano palavras em inglês muitas vezes desnecessárias: call, job, lead, briefing...

É linguagem técnica?

É necessidade?

É moda?

Ou também é uma forma de dizer: “Eu pertenço a este grupo”?

A linguagem que usamos não revela apenas o que sabemos.

Ela também revela onde queremos estar — e de onde viemos.

E você?

Qual é o linguajar que usa e que faz você se sentir pertencente?